• Flavia Andrade

Como educadores podem conduzir provas e avaliações no ensino remoto?


(Foto: Divulgação)

Dados da pesquisa Vozes Docentes - conduzida com 8.786 professores de 87 municípios brasileiros - apontam que 98% dos educadores têm dificuldade em avaliar o estudante, por vídeo, no ensino remoto. Entre os entrevistados, 27% relatam que o seu município não promove avaliações diagnósticas estruturadas para identificar lacunas de aprendizagem.

Com a experiência de atender mais de 250 escolas brasileiras, especialistas da Geekie – edtech que é referência no ensino em educação com apoio de inovação e tecnologia com intencionalidade pedagógica – apontam quais são as formas de avaliar os alunos remotamente por meio das evidênciasde aprendizagem. Gestores dos colégios Camilo Toscano (Rio Grande do Norte) e Saber Viver (Recife) – parceiros da Geekie – contam como reformularam a maneira de avaliar os alunos.


Educadores, pais e responsáveis têm debatido um tema muito relevante nas escolas: como aplicar provas e avaliações no contexto do ensino remoto. De acordo com a pesquisa Vozes Docentes, conduzida com 8.786 professores de 87 municípios brasileiros, 98% dos entrevistados estão enfrentando dificuldade para avaliar os estudantes; 27% relatam que o seu município não promove avaliações diagnósticas estruturadas capazes de identificar as lacunas na aprendizagem. O mapeamento é uma iniciativa da rede Conectando Saberes, apoiada pela Fundação Lemann.


De acordo com especialistas da Geekie – edtech que é referência no ensino em educação com apoio de inovação e tecnologia com intencionalidade pedagógica –, o ensino a distância não é um impeditivo para que o docente realize as avaliações. Pelo contrário, a necessidade imposta de se manter aulas on-line tem demandado dos educadores a criação de novas maneiras de avaliação e pode ser uma oportunidade de transformação das formas avaliativas em sala de aula.


“Não estou falando da perspectiva convencional baseada em examinar o processo final de ensino-aprendizagem por meio de uma prova, mas de uma prática avaliativa que ocorre durante o processo, ou seja, em diferentes etapas e com propósitos distintos. Nesse contexto, as evidências de aprendizagem coletadas durante as dinâmicas educacionais permitem aos professores tornar visível o real aprendizado – são dados coletados que direcionam as decisões pedagógicas e facilitam esse processo de avaliação, mesmo a distância. Dentro dessa lógica, para garantir que o processo avaliativo ocorra de forma integral, é importante que sejam avaliados três elementos do processo de aprendizagem: participação (engajamento e colaboração), desenvolvimento (acompanhamento da evolução da aprendizagem: a avaliação formativa) e resultado. Esse conjunto resolve uma equação que possibilita uma avaliação mais integral e construtiva”, afirma Camila Karino, diretora pedagógica da Geekie.


Segundo Alena Nobre, diretora pedagógica do Colégio Saber Viver – no Recife, Pernambuco –, a avaliação formativa ganhou destaque. “A pandemia fez com que os modelos de avaliação se modificassem. Na angústia do processo de adaptação à educação on-line, passamos a nos questionar para que servia a avaliação, ou seja, iniciamos uma reflexão para além do objetivo de ter notas para ser aprovado ao final do ano. E, os pais se aproximaram muito dos educadores nesse questionamento. Com o apoio da Geekie, no nosso colégio, a avaliação processual (formativa ou contínua) ganhou mais força”, afirma a educadora.


Leonardo Toscano, mantenedor do Colégio Camilo Toscano – da cidade de Currais Novos, no Rio Grande do Norte – concorda com Alena. “Durante muitos anos, o modelo tradicional foi seguido por conta dos vestibulares. Agora, vemos que a escola passa a ter uma avaliação continuada. Ou seja, não precisa ter um momento de avaliação, pois podemos avaliar em todas as horas. Cada vez que um aluno traz o próprio ponto de vista, temos uma oportunidade de avaliá-lo”, afirma.


Maneiras de avaliação no ensino remoto


Mas, como avaliar a participação do estudante a distância? Essa tarefa se refere à possibilidade de o educador observar comportamentos e atitudes que os estudantes demonstram durante todo o percurso da aprendizagem. Essa análise é realmente importante, pois transmite ao aluno a noção do quão valorizado é o engajamento dele – revelado por uma atitude aberta à mentalidade de crescimento (em substituição a uma mentalidade mais fixa) e de aprendizado contínuo. Essa assimilação é essencial porque substitui a concepção negativa de que avaliar é somente comprovar o domínio do conteúdo ao final do processo.

De acordo com especialistas da Geekie, esse olhar mais amplo e valorizando a jornada mostra a coerência dos projetos pedagógicos que buscam desenvolver habilidades como empatia e colaboração. Na análise, itens como a entrega de atividades no prazo estipulado; presença e interações nos momentos síncronos; interação nos encontros virtuais; e colaboração com membros da turma são indicadores a serem utilizados pelos professores. Investir nessa forma de pensar é ter um ciclo mais completo do impacto da educação. Um ponto importante é que esse processo seja claramente apresentado ao aluno. Todo processo avaliativo precisa ser transparente, inclusive para fortalecer a autonomia e as escolhas dos alunos. Muitas escolas utilizam a rubrica como suporte para a avaliação da participação, é realmente um bom instrumento.


Para medir o desenvolvimento da aprendizagem – o segundo tópico apontado pela equipe de especialistas da Geekie –, o professor precisa estar atento às devolutivas claras dos alunos que possam gerar as evidências do domínio de assuntos e do desenvolvimento de habilidades, ou seja, foco no progresso do estudante. Essa forma possibilita uma análise da evolução da aprendizagem em diferentes momentos e por múltiplas estratégias do docente, direcionando cada ação. Mostra para o estudante o quanto o processo é importante para o resultado. “Nessa seara, uma maneira eficiente de avaliar é analisar o desempenho da turma nas atividades; os resultados individuais dos estudantes em exercícios; além disso, é importante conceber que as evidências estão no dia a dia em todas as interações que realizamos com os estudantes, em uma discussão realizada em sala de aula ou numa reflexão ao final de um capítulo. Um bom instrumento que permite um registro contínuo do desenvolvimento é os portfólios”, salienta Camila Karino.


A função é gerar para o professor (mediador e tutor do conhecimento) evidências da assimilação da evolução – o pensamento do estudante fica visível para o educador. Quanto mais o docente registra essas evidências, melhores serão a sua tomada de decisão e sua ação pedagógica. Assim, quando a escola consegue se apropriar e ter o domínio dessas informações, o processo de ensino-aprendizagem se torna mais eficiente. Além disso, prover essa mesma visibilidade para as famílias dará segurança de que o processo de aprendizagem está preservado, mesmo diante de um momento tão desafiador como o que estamos vivendo.


Em resultado reside a avaliação de qual ponto o estudante conseguiu chegar ao final de um processo – pode ser bimestral, trimestral ou do ano letivo. Ele gera informações sobre a efetividade de um processo pedagógico. Geralmente, as escolas usam as provas para mensurar esse resultado; hoje, podemos usar relatórios de pesquisas como entregas e análises de portfólio que tragam evidências da assimilação por parte do aluno do conteúdo passado. As tradicionais provas ainda são alternativas possíveis, apesar das dificuldades de aplicação e da fidedignidade das respostas. Para contornar esse segundo ponto, é interessante pensar em questões abertas e que avaliam níveis cognitivos mais avançados. É importante ressaltar que resultado é o conjunto do que foi desenvolvido ao longo de um tempo determinado.


A avaliação desses três elementos – participação, desenvolvimento durante o processo e resultado de aprendizado – engloba, de modo geral, os principais aspectos que precisam ser considerados em um processo educativo que valoriza não apenas a conclusão, mas o envolvimento e o esforço ao longo da jornada. A partir desses elementos, a escola pode comprovar a execução do trabalho pedagógico realizado e fazer uma deliberação sobre aprovação ou reprovação, requisito legal necessário. Ressalto que os educadores devem observar as normas estabelecidas pelos conselhos estaduais de educação, que estão deliberando sobre a temática de provas a distância. Em São Paulo, por exemplo, a secretaria autorizou a realização de avaliações, mas há várias localidades que aguardam o retorno das aulas presenciais para aplicar provas.


“Uma pergunta recorrente que temos ouvido na Geekie, proferida por professores, é sobre como avaliar de uma forma mais integral – não apenas o cognitivo. É notório que o cognitivo só vai funcionar se o socioemocional do aluno estiver atendido de alguma forma. Nesse período a distância, a escola deve estar mais presente, mais ativa para garantir a manutenção dessa saúde emocional do estudante”, afirma Camila.


A despeito de todo o desafio que a avaliação a distância envolve, os educadores estão diante de uma oportunidade de diversificar os métodos avaliativos. Especialistas da Geekie alertam para o fato de que, muitas vezes, quando pensamos em avaliação, a associamos imediatamente ao conceito de prova; mas essa é uma classificação muito restrita. “Diminuímos a dimensão da importância de avaliar o aluno, quando restringimos esse processo a uma mera prova. Mas, não devemos ceder à tentação de procurar a melhor prova on-line; devemos nos desafiar a ampliar nossos processos avaliativos, a mudar o nosso mindset para irmos em direção a um método que de fato corrobora com o processo pedagógico; seja ele presencial ou a distância”, finaliza a diretora pedagógica da Geekie.

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